Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

O Hospital (esse local de imensa fantasia)


Das coisas que sempre me endoideceram no hospital é não poder dar um passo sem que o mesmo se multiplique por mil. No meu mundo existe um fosso enorme que entendo, aceito e defendo entre a educação médica e a educação clínica. A educação clínica é, na minha óptica, dever comum a todos os que lidam com os doentes. A médica pertence – evidentemente - a essa classe profissional.
Mas a realidade é que aprendemos muita coisa uns com os outros. A linha na barricada é ténue e às vezes as coisas misturam-se. Nunca me pronunciei sobre a educação médica, mas no que toca à educação clínica dias tenho em que o cérebro me escorrega.
E há pessoas que por mais que não queiramos, pela nossa formação em pedagogia nos chamam à atenção.
Isso aconteceu-me com um aluno em particular.
Percebi há várias semanas que o jovem que até parecia ter vontade de aprender e alguma inteligência, estava extremamente desmotivado com o que encontrou.
Dado que a nossa relação já leva alguns meses de evolução decidi explicar-lhe os factos da vida, quando percebi que as coisas não iam pelo caminho certo.
Expliquei-lhe que há um momento em que ainda enquanto alunos temos de nos apoderar do nosso papel ali, e viver aquilo como se fosse a sério, porque dentro em breve será a sério e nessa altura não há professor que nos valha.
Descobri fascinada que o rapaz está entristecido porque quando for grande quer ser obstetra (acho muito bonito querer ser-se obstetra quando se for grande) e acha o que nós fazemos ali na fronteira entre o horrível, despótico, medonho e insuportável.
E depois olhou-me com ar triste e acrescentou:
É que nem suturar sei, não sirvo para nada…
Larguei-me a rir.
Oh homem, isso lá faz um médico?!
Um médico é outra alma, não é um costureiro. E se me permite, acho que o senhor tem muito de médico. E recordei-o de algumas coisas bastante acertadas que fez por auto-recriação.  E se for por aí pode não saber suturar, mas colhe sangue melhor do que os outros todos! E pisquei-lhe o olho.
Decidi puxar-lhe pelo ego.
Largue lá o processo e venha daí.
Segurei-o pelo braço, levei-o pelo corredor até à cafetaria.
Conversámos. Deixei-o falar pacientemente.
Voltámos pelo mesmo caminho.
Mandei-o de volta ao sítio que o aterroriza e fui à minha vida.
Hoje soube que se especula sobre a minha “relação” com o aluno. Por isso acho por bem no nosso próximo “encontro” dar-lhe dois beijinhos para apimentar as coisas.


11 sem comentários:

Diuska disse...

Dois beijinhos =) boa!adorei!

e num terceiro encontro quem sabe um abracinho :P há que entreter a novela não é?

uma pessoa fica a saber que é realmente importante quando é alvo de atenção pelos outros, que em vez de se preocuparem com as suas vidinhas prestam atenção a coisas que nem importam.

Joana disse...

Permite-me perguntar-te: És médica ou enfermeira? Sempre fiquei na duvida sobre qual serias.

Ab.

Sahaisis disse...

Diuska: Mesmo!
Joana: Acho que é bastante óbvio. Mas diz-me lá o que achas :p e pq...

Anónimo disse...

eu sei que és enfermeira, e como tal transpras um certo síndrome de inferioridade quando aos médicos daí o exagero aqui em aplicar termos técnicos como a te reafirmares que sabes. dai que confundas tantos que por aqui passam

Sahaisis disse...

Oh alguém que me compreende perfeitamente!!! É efectivamente um complexo de inferioridade que me faz escrever aqui da maneira que falo todos os dias da minha vida. Muito obrigada por me ter entendido ;)

Maria disse...

Ahahah, dois beijinhos?! que optima ideia. O Pedrinho é que não vai achar muita piada. ;)

Joana disse...

Bem, eu inclino mais para a enfermagem. :)

Não concordo com o @Anónimo em relação ao 'síndrome de inferioridade' pois acredito que, todos nós, seja qual for a área profissional que nos encontremos, temos que ter um conhecimento muito mais abrangente do que aquele que se cinge à área em questão. E ser enfermeiro é um construto de áreas: técnico, médico, terapeuta... E é essa vertente que me leva a inclinar para a enfermagem: a tua relação com os doentes, o tempo que despendes com eles, a relação terapêutica que (descreves que) constróis com eles porque, um médico, num hospital a criar uma relação deste tipo com um doente? Não estou a ver isso a acontecer. x)

Ab.

Ana Ferreira disse...

Sahaisis leio-te religiosamente e só de vez em quando comento. Desta vez e como enfermeira farta de ouvir comentários como os que li aqui, tive que comentar para te felicitar porque esta tua resposta fez me rir até doer a barriga!!

**

Sahaisis disse...

Maria: Provavelmente..Vou-lhe perguntar o que acha :p
Joana: Sou evidentemente enfermeira, e tb não concordo com o anónimo.
Ana: Bem sei que me lês de há muito tempo. Não respondi como queria, mas isso implicava grande elaboração mental, e como sabes só os limitados e burros, que não tiveram média para medicina é que são enfermeiros. Gajas que nunca quiseram (e continuam a não querer esse míster) são gambuzinos ;)

Navajovsky disse...

ai gosto muito da pessoas que acham que os enfermeiros queriam todos ir para médicos e não conseguiram, coitadinhos dos pobres. Mas também gosto muito das que acham que os médicos nunca constroem uma relação com os doentes. Aliás, nem lhes falam, só lêm as fichas, é como o house. Enfim

Sahaisis disse...

No geral são uma cambada de...fofos ;)