Partir ampolas com os dedos nus sem os cortar, picar artérias,
correr atrás de veias, ouvir o mar através de pulmões encharcados. Demorei muito
tempo a sentir-me calma, tranquila, segura no instante em que pego num telefone
para dizer que alguém diante dos meus olhos está prestes a parar de respirar.
Demorei muito tempo a aprender a segurar com uma só mão o
ambu e a perder o pudor de subir para cima de uma cama que não é minha, na hora
de transferir alguém que não respira por si de um lado para o outro.
Aprendi a respirar no momento em que a respiração de outra
pessoa passa a ficar sobre o meu completo controlo.
Aprendi. A ser eu e a viver com a impressão que causo nos
outros quando entro numa sala, directamente proporcional às cabeças que se
voltam e às mãos que me estendem canetas porque a minha desapareceu.
Aprendi a viver com isso e a não corar, porque sei que isso
não vem da minha beleza ou charme pessoal, mas do meu amor a isto (mais do que
competência, porque não vejo em mim nada de extraordinário).
Hoje, enquanto saltava para cima de uma cama, berrando ordem
de comando mão já quase dentro do tórax, dei por mim a pensar que nunca
imaginei viver para saber sobreviver a um dia como hoje.
Saber o que tenho de fazer, cada passo, coberta de sangue,
enquanto respiro fundo, sem nunca perder o controlo.
Pulmões cheios de mar, corações cheios de sangue, almas
cheias do vazio, madrugadas de mim, a tua admiração ali na porta, fronteira
entre o meu mundo e o teu. Vale a vida. Parece-me que estou mais viva hoje do
que no tempo em que acreditava em príncipes e princesas e no mundo a preto e
branco…
Demorei muito tempo a aprender, mas sinto que quando aprendi, aprendi-o do alto dos meus saltos mais altos...

4 sem comentários:
afinal acertei num nervo. qualquer profissional desde administrativo aos da saúde são na sua função necessa´rios e essênciais no compto geral- team work. E quem lida com a vida humana têm que ter a HUMILDADE e CONSCIÊNCIA que não se sabe tudo. É o correr horas a fio, corredores, engolir kilómetros de linhas em mil línguas, novos avanços, até à exaustão, esquenço até de nós próprios e dos nossos nos confortáveis TÉNIS :)) e sinceramente apenas nos primeiros anos de anatomia se é rídiculo de com outrém usar frase como: 'quando passas-te a mão pela crista do meu osso ilíco.
censura lá isto. de facto até te tinha como uma miúda esforçada e de bom fundo. mas com o tempo te pareces as fascistas das enfermeiras que pensam que mandam nas enfermarias: e o Pedrinho, um trofeu, como mais um penduricalho para maquilhar a vaidade do ego.
Num nervo? Não. Isso seria fraquinho. Em cheio no plexo celíaco, e agora preciso desesperadamente de uma fenolização do dito. Por acaso sou mais a atirar para o comunista, principalmente se puder comungar com o meu troféu, o tal do meu complexo de inferioridade. Estou fascinada com a sua inteligência. E o osso, btw, é ilíaco. Gentil abraço, maravilhada com a sua portentosa (tb será termo técnico?) inteligência:
Sahaisis
Nota: É divertido, mas a partir de agora fica censurado, está bem gentil anónimo?
Ao fim de 18h de trabalho que me faz usar terminologia técnica dos primeiros anos de anatomia (e não dos não sei quantos de calcorrear esse precioso chão onde me fiz tão inferior) ainda acho graça, ao fim de 24h já nem tanto ;)
Oi?!
Fico fascinada com esta gente anónima...A sério. Darem-se ao trabalhinho de lerem, não gostarem e manifestarem-se de forma má e mesquinha. Haja paciência...Pensarem que sabem tudo de uma pessoa só pelo que escrevem num blog. É como os escritores que escrevem policiais. Devem ser todos assassinos e criminosos frustrados...Sahaisis, querida, não é que precises que te diga mas como sou uma assidua do teu espacinho leva lá esta beijoca e descansa mulher! Que o teu trofeu, perdão Pedrinho te aguarda para mais amor e amor e amor e sorrisos. Que é isso que falta a muito boa gente.
Assino por baixo ;)
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